{"id":1608,"date":"2020-08-04T11:13:23","date_gmt":"2020-08-04T14:13:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/?p=1608"},"modified":"2020-08-04T11:13:23","modified_gmt":"2020-08-04T14:13:23","slug":"assucena-assucena-faz-resenha-do-livro-poncia-vicencio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/2020\/08\/04\/assucena-assucena-faz-resenha-do-livro-poncia-vicencio\/","title":{"rendered":"Assucena Assucena faz resenha do livro &#8220;Ponci\u00e1 Vic\u00eancio&#8221;"},"content":{"rendered":"<h1>Assucena Assucena faz resenha do livro &#8220;Ponci\u00e1 Vic\u00eancio&#8221;<\/h1>\n<p><em>Em sua coluna no portal Vogue Brasil, cantora evidencia profundas quest\u00f5es da obra de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, como o racismo estrutural sist\u00eamico<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em seu \u00faltimo texto feito para sua coluna semanal no portal <strong>Vogue Brasil<\/strong>, Assucena Assucena, integrante do grupo <strong>As Bahias e a Cozinha Mineira<\/strong>, escolheu como tema fazer a resenha de uma das obras de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo. Maria da Concei\u00e7\u00e3o Evaristo de Brito \u00e9 uma romancista, escritora e poeta mineira, que atualmente d\u00e1 aulas na <strong>Universidade Federal de Minas Gerais<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>Ponci\u00e1 Vic\u00eancio<\/strong>, um de seus grandes romances, foi o livro escolhido por Assussena para ser abordado. Com um plano de fundo debru\u00e7ado em quest\u00f5es existenciais profundas, a obra conta a hist\u00f3ria da protagonista hom\u00f4nima ao t\u00edtulo, uma mulher negra, campestre, artista, que \u00e9 assolada por diversos problemas e dificuldades sociais e emocionais. Confira aqui na \u00edntegra a resenha:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ponci\u00e1 \u00e9 uma jovem mulher\u00a0<a href=\"https:\/\/vogue.globo.com\/lifestyle\/cultura\/noticia\/2020\/06\/10-livros-fundamentais-escritos-por-mulheres-negras.html\">preta<\/a>, do campo, que nascera com o genu\u00edno dom de esculpir a terra. Dizem que foi assim que Deus criou a humanidade, esculpindo-a do pr\u00f3prio ch\u00e3o. Ponci\u00e1 com suas m\u00e3os imitava Deus. Como todo artista, ela produzia forma, imagina\u00e7\u00e3o e sonho. Por\u00e9m uma fenda existencial se apodera de Ponci\u00e1, e vai ganhando tamanho ao longo da trama.<\/em><\/p>\n<p><em>Ponci\u00e1 desenvolve um longo processo de alheamento de si mesma; primeiro por n\u00e3o se reconhecer no pr\u00f3prio nome. \u00c9 que a vida parecia j\u00e1 ter decidido, muito, acerca dos contornos que definiriam sua exist\u00eancia. Ponci\u00e1 n\u00e3o suportava ter consci\u00eancia de seu injusto destino. Ela n\u00e3o suportava, ter que esbarrar em decis\u00f5es maiores que suas escolhas, pois tinha certeza, que ela pr\u00f3pria era bem maior e melhor que tudo aquilo: <strong>\u201cPonci\u00e1 havia tecido uma rede de sonhos e agora via um por um dos fios dessa rede destecer e tudo se tornar um grande buraco, um grande vazio\u201d<\/strong>.<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00e3o bastava o destino lhe arrancar os sonhos, ele tamb\u00e9m foi lhe pregando aus\u00eancias, exatamente como aconteceu \u00e0 sua m\u00e3e, Maria Vic\u00eancio. O vazio que se abre em Ponci\u00e1 \u00e9 alimentado por uma sequ\u00eancia de\u00a0aus\u00eancias, por uma s\u00e9rie de desapropria\u00e7\u00f5es impostas, as quais v\u00e3o se acumulando tragicamente.<\/em><\/p>\n<div id=\"pub-materia-3\" class=\"adv adv-article halfpage\" data-advertising=\"0\" data-advertising-status=\"complete\" data-google-query-id=\"COHWgu_VgesCFfwmuQYdBwgIpQ\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/85042905\/vogue\/Vogue-Gente\/materia_5__container__\"><em>Com muita poesia, Concei\u00e7\u00e3o Evaristo\u00a0sinaliza os produtores do vazio. Ponci\u00e1 teve sete filhos, todos nasceram mortos, quase como os seus sonhos. Essa alegoria do natimorto traz \u00e0 tona um triste v\u00ednculo com a realidade brasileira, a m\u00e3e preta que convive com a aus\u00eancia do seu rebento, o qual lhe \u00e9 tirado precocemente, por for\u00e7a maior: se n\u00e3o \u00e9 pela subnutri\u00e7\u00e3o, se n\u00e3o \u00e9 pela explora\u00e7\u00e3o de seu corpo e de seu tempo por condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias de trabalho, \u00e9 pela viol\u00eancia policial; tudo isso se desenha como produto da gritante desigualdade social, a qual \u00e9 assegurada por um Estado que se faz ausente. Ausente para quem? Apesar de tudo, h\u00e1 em Ponci\u00e1 uma for\u00e7a muito maior que a sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia e o ac\u00famulo do vazio. Essa for\u00e7a \u00e9 propulsora da exist\u00eancia e tem ra\u00edzes t\u00e3o profundas quanto o oceano, eis a tal da mem\u00f3ria, carregada de espa\u00e7os e tempos e amparada pela pujan\u00e7a da vida ancestral.<\/em><\/div>\n<\/div>\n<p><em>Eu diria que a pr\u00f3pria mem\u00f3ria se personifica como narradora-personagem do texto, com relampejos, digress\u00f5es e retomadas, desobedecendo a linearidade cronol\u00f3gica, com a desenvoltura da lembran\u00e7a. A hist\u00f3ria se desenrola na primeira metade do s\u00e9culo XX, no contexto do p\u00f3s-aboli\u00e7\u00e3o. O cen\u00e1rio se alterna entre o campo e a cidade, apontando para o drama negro do \u00eaxodo rural compuls\u00f3rio e consequentemente para o in\u00edcio das favelas. Na medida que as personagens v\u00e3o assumindo seu lugar na ribalta, os fatos narrados denunciam a viol\u00eancia f\u00edsica e psicol\u00f3gica a que os descendentes dos escravizados eram submetidos e desse modo, escancara o descaramento de uma aboli\u00e7\u00e3o inconclusa.<\/em><\/p>\n<div id=\"pub-materia-4\" class=\"adv adv-article \" data-advertising=\"0\" data-advertising-status=\"complete\" data-google-query-id=\"CLnU3ZHXgesCFcMGuQYdVzAF_g\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/85042905\/vogue\/Vogue-Gente\/materia_6__container__\"><em>Um grande aspecto dessa obra \u00e9 que ela n\u00e3o desvencilha o drama existencial de cada personagem dos desdobramentos hist\u00f3ricos, tecendo assim, uma trama s\u00f3cio-estrutural, que evidencia o quanto a responsabilidade pelo trauma causado ao indiv\u00edduo deve ser compartilhada entre Estado e Sociedade. Por isso, Evaristo n\u00e3o subestima os desdobramentos hist\u00f3ricos, os quais, desenvolvem uma estrutura sist\u00eamica racista, ancorada no sistema colonial.<\/em><\/div>\n<\/div>\n<p><em>A aboli\u00e7\u00e3o inconclusa pelo Estado Brasileiro alijou pessoas negras de direitos fundamentais, como o direito \u00e0 terra, privando-as de autonomia econ\u00f4mica e deixando-as ref\u00e9ns das perversas\u00a0estruturas\u00a0escravocratas. Por isso, cada indiv\u00edduo constr\u00f3i seus subterf\u00fagios, ao esbarrar nas injusti\u00e7as do sistema. No caso de Ponci\u00e1, uma das sa\u00eddas foi a esperan\u00e7a de alterar a rota de seu destino migrando para a cidade, depois da malograda tentativa, ela desenvolve outra sa\u00edda como seu V\u00f4 Vic\u00eancio, o subterf\u00fagio psicol\u00f3gico, a triste sa\u00edda de si mesma. Evaristo n\u00e3o subestima quaisquer que sejam as personagens, atribuindo-lhes, sempre, complexidade psicol\u00f3gica, pois lhes esmi\u00fa\u00e7a a consci\u00eancia, os sentidos e a mem\u00f3ria coletiva.<\/em><\/p>\n<p><em>Apesar de tudo, ela sempre se\u00a0lembrava&#8230; essa mem\u00f3ria obstinada era quem lhe agarrava \u00e0 vida:<\/em><\/p>\n<p><em><strong>\u201cPonci\u00e1 sabia dessas hist\u00f3rias e de outras ainda, mas ouvia tudo, como se fosse pela primeira vez. Bebia os detalhes remendando cuidadosamente o tecido roto de um passado, como algu\u00e9m que precisasse recuperar a primeira veste, para nunca mais se sentir desamparadamente nua\u201d<\/strong>.<\/em><\/p>\n<p><em><strong>\u201cAcumular idas, partidas e aus\u00eancias\u201d<\/strong> n\u00e3o pode ser destino de quem quer que seja. Precisamos nos responsabilizar pela dor de Ponci\u00e1 Vic\u00eancio, como indiv\u00edduo, como sociedade e como Estado, com a urg\u00eancia que a hist\u00f3ria nos imp\u00f5e. Concei\u00e7\u00e3o Evaristo nos aponta bem o caminho e nos oferece a oportunidade de sentir afetivamente a exist\u00eancia do outro, agu\u00e7ando-nos a empatia, com o zelo de quem conta uma boa hist\u00f3ria. Doeu e por isso eu chorei, mas em Ponci\u00e1 Vic\u00eancio outra oportunidade nos \u00e9 dada: a beleza sempre poss\u00edvel do reencontro. Salve Evaristo!<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em sua coluna no portal Vogue Brasil, cantora evidencia profundas quest\u00f5es da obra de Concei\u00e7\u00e3o Evaristo, como o racismo estrutural sist\u00eamico<\/p>\n","protected":false},"author":43,"featured_media":1609,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"tags":[15],"class_list":["post-1608","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","tag-as-bahias-e-a-cozinha-mineira"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1608","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/43"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1608"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1608\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1611,"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1608\/revisions\/1611"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1609"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1608"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1608"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}