{"id":1716,"date":"2020-08-11T17:13:12","date_gmt":"2020-08-11T20:13:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/?p=1716"},"modified":"2020-08-11T17:13:12","modified_gmt":"2020-08-11T20:13:12","slug":"assucena-fala-sobre-a-paixao-pela-lingua-portuguesa-em-sua-coluna-semanal-da-vogue","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/2020\/08\/11\/assucena-fala-sobre-a-paixao-pela-lingua-portuguesa-em-sua-coluna-semanal-da-vogue\/","title":{"rendered":"Assucena fala sobre a paix\u00e3o pela l\u00edngua portuguesa em sua coluna semanal da Vogue"},"content":{"rendered":"<h1>Assucena fala sobre a paix\u00e3o pela l\u00edngua portuguesa em sua coluna semanal da Vogue<\/h1>\n<p><em>Vocalista da banda As Bahias e a Cozinha Mineira relembra como seu tio influenciou sua rela\u00e7\u00e3o com o nosso idioma<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em seu \u00faltimo artigo em sua coluna semanal do portal <strong>Vogue Brasil<\/strong>, a vocalista do grupo <strong>As Bahias e a Cozinha Mineira<\/strong>, Assucena, abriu o cora\u00e7\u00e3o sobre sua paix\u00e3o pela l\u00edngua portuguesa, destacando a import\u00e2ncia que teve seu tio Esechias Ara\u00fajo Lima em sua rela\u00e7\u00e3o com o nosso idioma. Ao longo do artigo, que praticamente constitui uma cr\u00f4nica narrativa da pr\u00f3pria hist\u00f3ria da cantora, Assucena passeia por sua inf\u00e2ncia, juventude e tempos mais recentes, pontuando a cada passagem a influ\u00eancia transformadora das a\u00e7\u00f5es de Esechias. Fica clara a admira\u00e7\u00e3o da artista da m\u00fasica pelo artista l\u00edngua, o que torna o texto ainda mais cativante e interessante. Confira:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>&#8220;Eu sempre zelei por deixar acesa a chama da paix\u00e3o que sentia pela l\u00edngua portuguesa. Quando adolescente, tentei ouvir, algumas vezes, a sonoridade de minha fala nativa, de modo a simular uma escuta primitiva. Numa dessas, espreitei o di\u00e1logo de um casal, como uma estrangeira que n\u00e3o compreende, mas contempla e aprecia a musicalidade do idioma de outras paragens com o \u00eaxtase de quem desbrava e descobre. Evidentemente, as tentativas foram malogradas, pois a consci\u00eancia do entendimento n\u00e3o me permitiu tamanho distanciamento de mim mesma. \u00c9 que a l\u00edngua j\u00e1 me constitui enquanto um ser social no mundo, quase como uma coisa s\u00f3, eu e ela. Sou da trupe dos humanos, porque penso com a palavra, e nesse caso penso com a palavra em portugu\u00eas. Me confortava, por\u00e9m, assumir meu real lugar de estrangeira, por ao menos contemplar a cad\u00eancia musical e provocante do espanhol, sua irm\u00e3 ib\u00e9rica. Mas hoje percebo que essa paix\u00e3o pela letra fora acendida por encontros no percurso e pela sorte de ter entre meu c\u00edrculo familiar, um amante, e, como n\u00e3o bastasse ser amante, \u00e9 tamb\u00e9m um leal guardi\u00e3o da beleza da \u00faltima flor do L\u00e1cio.<\/em><\/p>\n<p><em>Me impressionava e ainda me impressiona a habilidade com que meu tio, Esechias Ara\u00fajo Lima, manipula todas as reparti\u00e7\u00f5es que organizam seu idioma. Eu ficava embasbacada com seu dom\u00ednio morfossint\u00e1tico e sua an\u00e1lise acurada de qualquer que fosse o discurso ou texto. A mim me parecia que nada lhe passava inc\u00f3lume. E n\u00e3o passa. N\u00e3o foram poucas as vezes que ele corrigira os presun\u00e7osos erros dos acad\u00eamicos, mesmo tendo por titularidade escolar apenas o ensino m\u00e9dio completo. Mas o que mais me impressionava, mesmo, era o esmero com que ele cuidava de cada palavra do vern\u00e1culo. Ora, para condecorar tamanha lealdade e afeto, a l\u00edngua\u00a0portuguesa\u00a0lhe conferia seus altos of\u00edcios, n\u00e3o lhe restava outro destino sen\u00e3o ser poeta, dramaturgo e escritor.<\/em><\/p>\n<div id=\"pub-materia-3\" class=\"adv adv-article halfpage\" data-advertising=\"0\" data-advertising-status=\"complete\" data-google-query-id=\"CKCMiqnBk-sCFaUFuQYdX2MMxQ\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/85042905\/vogue\/Vogue-Gente\/materia_5__container__\"><em>S\u00f3 nos tempos de minha faculdade \u00e9 que me atentei com entusiasmo para a envergadura daquele mestre que estava sempre ali, no c\u00edrculo dos presentes e das novidades do meu cotidiano. H\u00e1 10 anos, meu pai chegou em casa com a not\u00edcia de que tio Esechias ganhara o <strong>Pr\u00eamio Nacional Assis Chateaubriand de Reda\u00e7\u00e3o<\/strong> na categoria <strong>Ensino Superior<\/strong>. Meus olhos brilharam. &#8216;<strong>A Viuvez da Palavra<\/strong>&#8216; era o nome de sua cr\u00f4nica dedicada ao homenageado da edi\u00e7\u00e3o, o grande poeta Carlos Drummond de Andrade. Ent\u00e3o, numa dessas idas a Vit\u00f3ria da Conquista, fiz uma visita madura \u00e0 casa de tio Esechias. Foi nessa visita que nossos esp\u00edritos se reconheceram como amantes da mesma namorada. Bem, passamos horas a fio a falar de literatura, can\u00e7\u00e3o brasileira e poesia. De repente, como quem saca um tesouro, meu s\u00e1bio tio tirou da estante um t\u00edtulo por nome &#8216;<strong>Auto da Gamela<\/strong>&#8216;. Eu n\u00e3o sabia, mas era uma obra dram\u00e1tico po\u00e9tica de sua autoria com o dramaturgo Carlos Jehovah, publicada em 1980, na qual as agruras do indiv\u00edduo do sert\u00e3o nordestino eram encenadas.<\/em><\/div>\n<\/div>\n<p><em>Eu me sentia tra\u00edda pela minha pr\u00f3pria aten\u00e7\u00e3o. Como n\u00e3o havia percebido antes, uma publica\u00e7\u00e3o t\u00e3o emblem\u00e1tica de tio Esechias? \u00c9 que a maturidade \u00e9 feita de tempos e espa\u00e7os, ela \u00e9 quem descortina com paci\u00eancia o que sempre pareceu estar diante de nosso cenho. Ao abrir o livro, logo na orelha estava ostentado um texto da autora de &#8216;<strong>O Quinze<\/strong>&#8216;, a grande Rachel de Queiroz: \u201c<strong>N\u00e3o sou juiz de poesia &#8211; jamais ousei &#8211; mas juiz de mat\u00e9ria sertaneja, isso eu sou! Poucas vezes encontrei, fora de Ariano Suasssuna e Jo\u00e3o Cabral, uma for\u00e7a da terra t\u00e3o viva e violenta como nesse caderno de versos de voc\u00eas, nesse Auto da Gamela&#8230;<\/strong>\u201d Era um convite a mergulhar naquele livro\u00a0que hoje me \u00e9 exemplo para sentimento, beleza e t\u00e9cnica.<\/em><\/p>\n<div id=\"pub-materia-4\" class=\"adv adv-article \" data-advertising=\"0\" data-advertising-status=\"complete\" data-google-query-id=\"CLjnianBk-sCFbEwuQYd5QEIzw\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/85042905\/vogue\/Vogue-Gente\/materia_6__container__\"><\/div>\n<\/div>\n<p><em>&#8216;H\u00e1, no c\u00e9u desta terra,<\/em><br \/>\n<em>um doce mist\u00e9rio de estrelas suadas&#8230;<\/em><br \/>\n<em>H\u00e1, na terra torrada,<\/em><br \/>\n<em>lampejos de chamas incolores:<\/em><br \/>\n<em>\u00e9 o sol a tremer labaredas e sulinas.<\/em><br \/>\n<em>H\u00e1, nas grimpas das serras,<\/em><br \/>\n<em>luares paridos em prata.<\/em><br \/>\n<em>H\u00e1, nas m\u00e3os da aparadeira,<\/em><br \/>\n<em>um choro nascido \u00e0 luz da candeia<\/em><br \/>\n<em>H\u00e1, nos corpos das donzelas,<\/em><br \/>\n<em>um fogo que abrasa var\u00f5es.<\/em><br \/>\n<em>H\u00e1, no fundo do alforje,<\/em><br \/>\n<em>mortalhas tramadas em teares.<\/em><br \/>\n<em>H\u00e1, nas cacimbas e caldeir\u00f5es,<\/em><br \/>\n<em>jias mortas e quentes.<\/em><br \/>\n<em>H\u00e1, no dorso das serras,<\/em><br \/>\n<em>animais quietos e indolentes.<\/em><br \/>\n<em>H\u00e1, no leito dos rios,<\/em><br \/>\n<em>caminhos fundos de passagens.<\/em><br \/>\n<em>H\u00e1, em cada volta de estrada,<\/em><br \/>\n<em>rapinas em revoadas<\/em><br \/>\n<em>e saudades enterradas&#8230;&#8217;<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Depois daquela ida, n\u00e3o me deixei mais me trair. Minha aten\u00e7\u00e3o se redobrara em catalisar o sumo da linguagem, n\u00e3o com o engenho de meu tio, mas com a responsabilidade de quem ausculta. Tive a feliz oportunidade de me tornar sua disc\u00edpula, de consult\u00e1-lo sempre que necess\u00e1rio, de beijar-lhe a fronte e reverenci\u00e1-lo por me aceitar de bom grado como aprendiz e como suposta aspirante \u00e0 guardi\u00e3 do sagrado vern\u00e1culo. Toda l\u00edngua nativa se constitui sagrada, mesmo em seus limites mais profanos, por integrar a subst\u00e2ncia da mat\u00e9ria e do esp\u00edrito de uma sociedade. A busca por manipular os dom\u00ednios da palavra \u00e9 a busca por desenvolver o conhecimento de si e do\u00a0universo\u00a0no plano do discernimento concreto e intang\u00edvel. \u00c9 por isso que canto e escrevo, para materializar esse percurso.<\/em><\/p>\n<div id=\"pub-materia-5\" class=\"adv adv-article \" data-advertising=\"0\" data-advertising-status=\"complete\">\n<div id=\"google_ads_iframe_\/85042905\/vogue\/Vogue-Gente\/materia_7__container__\"><em>Num desses dias tomados pela inquieta\u00e7\u00e3o, chamei tio Esechias no <strong>WhatsApp<\/strong> e o cobrei por nunca ter publicado uma antologia po\u00e9tica sequer. Acho um absurdo! At\u00e9 hoje, h\u00e1 em seus arquivos, obras inteiras n\u00e3o compartilhadas com os anseios de quem as procura; h\u00e1 romances, cr\u00f4nicas, contos e por a\u00ed vai. Ele me respondeu por e-mail, com o refinado\u00a0humor dos s\u00e1bios: <strong>\u201cfique \u00e0 vontade para n\u00e3o gostar de nenhum\u201d<\/strong>. Esse recado veio acompanhado com um anexo de preciosos poemas e o nome da t\u00e3o esperada antologia. Ri alto, tamanha era a felicidade de ver um esteta da palavra me conceber o privil\u00e9gio da apresenta\u00e7\u00e3o precoce do nome de seu rebento. Por ora, guardo comigo os poemas, at\u00e9 poder retirar da estante as esmeradas Sedas e Bulgarianas. Te agrade\u00e7o meu tio!&#8221;<\/em>.<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vocalista da banda As Bahias e a Cozinha Mineira relembra como seu tio influenciou sua rela\u00e7\u00e3o com o nosso idioma<\/p>\n","protected":false},"author":43,"featured_media":1749,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"tags":[15],"class_list":["post-1716","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","tag-as-bahias-e-a-cozinha-mineira"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1716","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/43"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1716"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1716\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1748,"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1716\/revisions\/1748"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1749"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1716"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1716"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}