{"id":2118,"date":"2020-09-08T16:50:36","date_gmt":"2020-09-08T19:50:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/?p=2118"},"modified":"2020-09-08T16:50:36","modified_gmt":"2020-09-08T19:50:36","slug":"thelma-assis-relembra-sua-dificil-trajetoria-ate-o-canudo-em-medicina-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/2020\/09\/08\/thelma-assis-relembra-sua-dificil-trajetoria-ate-o-canudo-em-medicina-2\/","title":{"rendered":"Thelma Assis relembra sua dif\u00edcil trajet\u00f3ria at\u00e9 o canudo em medicina"},"content":{"rendered":"<h1>Thelma Assis relembra sua dif\u00edcil trajet\u00f3ria at\u00e9 o canudo em medicina<\/h1>\n<p><em>Agora vencedora do BBB, a anestesiologista precisou superar barreiras da cor e g\u00eanero para alcan\u00e7ar o sonho do diploma<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Thelma Assis vem passando uma quarentena bastante ativa e engajada, mostrando que agrega muito mais que apenas a personagem carism\u00e1tica e de fortes convic\u00e7\u00f5es que ganhou a \u00faltima edi\u00e7\u00e3o do programa Big Brother Brasil 20. A m\u00e9dica j\u00e1 participou a\u00e7\u00e3o humanit\u00e1ria global, a Lifesaving Conversations, marcou presen\u00e7a em campanhas antirracistas e contra a viol\u00eancia dom\u00e9stica, promovidos pelo Free Free, al\u00e9m de ter participado de diversas lives de cunho social, como uma conversa sobre sa\u00fade dos negros com Drauzio Varella. e a participa\u00e7\u00e3o no evento Menos30 Fest, ao lado do mesmo.<\/p>\n<p>Agora, em recente entrevista ao site Universa, da UOL, Thelminha relembrou um pouco de sua trajet\u00f3ria dentro da carreira. A anestesiologista relembrou as diversas barreiras que precisou transpassar para se tornar a \u00fanica negra da turma a se formar em medicina. Confira o emocionante relato dessa hist\u00f3ria de supera\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>&#8220;Uma panela, um prato, um copo e dois talheres.<\/p>\n<p>Precisava dar um jeito de acomodar esses utens\u00edlios de cozinha junto das roupas e acess\u00f3rios na minha \u00fanica mala abarrotada de coisas.<\/p>\n<p>Era um domingo de fevereiro de 2006, e meus pais rodavam pela nossa casa, no bairro do Lim\u00e3o, em S\u00e3o Paulo, enquanto ajudavam a preparar minha mudan\u00e7a. Desde que recebi a carta confirmando que tinha ganhado uma bolsa integral para o curso de medicina na PUC de Sorocaba, no interior do estado, minha vida virou de cabe\u00e7a para baixo.<\/p>\n<p>Foi gra\u00e7as ao esfor\u00e7o dos meus pais que cursei o ensino fundamental em uma escola particular. Minha m\u00e3e era funcion\u00e1ria p\u00fablica. Meu pai trabalhava em uma gr\u00e1fica. Do ensino m\u00e9dio para frente, eles n\u00e3o conseguiram mais bancar meus estudos e passei a frequentar um col\u00e9gio p\u00fablico.<\/p>\n<p>Depois, prestei um processo seletivo e consegui uma bolsa de 50% em um cursinho pr\u00e9-vestibular. Sabia, desde pequena, que queria ser m\u00e9dica. No entanto, por ser um curso concorrido, n\u00e3o consegui entrar na faculdade na primeira tentativa. E nem na segunda.<\/p>\n<p>Enquanto isso, al\u00e9m de me dedicar aos estudos, dava aulas de bal\u00e9 e fazia panfletagem para ajudar a pagar as mensalidades. Em casa, meu sonho era prioridade. Foi por isso que, na terceira tentativa, quando recebi a confirma\u00e7\u00e3o de que seria bolsista integral atrav\u00e9s do ProUni, comemoramos tanto. Na \u00e9poca, a mensalidade do curso custava cerca de R$ 2.700.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Destino: uma pens\u00e3o de trabalhadoras<\/strong><\/h3>\n<p>Precisei escolher uma acomoda\u00e7\u00e3o que estivesse dentro do meu or\u00e7amento. Eu e minha m\u00e3e acabamos optando por uma pens\u00e3o feminina pr\u00f3xima do campus.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, eu estava prestes a sair da capital. Quando o fim da tarde caiu, com a mala pronta, caminhei com meus pais at\u00e9 o ponto de \u00f4nibus e fomos de lota\u00e7\u00e3o para o terminal Barra Funda. Chorei muito no caminho. Por um lado, era a oportunidade de ingressar na profiss\u00e3o que eu tanto desejava. Por outro, estava com 21 anos e nunca tinha passado mais de cinco dias longe dos dois. Estava com o cora\u00e7\u00e3o apertado.<\/p>\n<p>Chegando ao terminal, tivemos que nos despedir. Nosso dinheiro n\u00e3o era suficiente para que eles me acompanhassem at\u00e9 outra cidade. Ent\u00e3o, a partir dali, subi no \u00f4nibus e continuei meu caminho sozinha.<\/p>\n<p>S\u00f3 quando cheguei \u00e0 rodovi\u00e1ria de Sorocaba foi que me dei conta do quanto a bagagem estava pesada: caminhei por 20 minutos carregando a mala pela al\u00e7a, parando de vez em quando para recuperar o f\u00f4lego. Mas a adrenalina estava t\u00e3o forte que n\u00e3o me incomodei.<\/p>\n<p>Quando finalmente cheguei ao meu novo e tempor\u00e1rio lar, conheci o espa\u00e7o onde passaria as semanas seguintes. N\u00e3o era uma acomoda\u00e7\u00e3o voltada para estudantes, mas para mulheres que trabalhavam em f\u00e1bricas nas redondezas. Meu quarto, estreito e simples, tinha duas camas e um arm\u00e1rio pequeno para guardar a mala. A cozinha do lugar, dividida entre as outras moradoras, era bastante apertada. Como minha colega de quarto, uma senhora idosa, n\u00e3o estava l\u00e1, tive tempo de respirar fundo e deixar as coisas arrumadas antes de dormir.<\/p>\n<p>Tinha esperado muito tempo por isso. Tentei pegar no sono, mas virei algumas vezes na cama antes de conseguir relaxar. Eu sabia que era aquela era minha \u00fanica chance. Queria come\u00e7ar com toda a dedica\u00e7\u00e3o poss\u00edvel para ter bons resultados e valorizar minha bolsa de estudos.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o cogitava, nem por um segundo, a possibilidade de falhar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>A hist\u00f3ria se repete<\/strong><\/h3>\n<p>Assim que acordei, entrei na fila para tomar banho porque n\u00e3o queria me atrasar. O banheiro da pens\u00e3o era compartilhado entre umas dez mulheres. Queria estar bonita, ent\u00e3o escolhi uma das minhas roupas preferidas: cal\u00e7a jeans e blusa azul. Passei maquiagem e, como era de costume, alisei o cabelo com uma prancha. Ainda levaria oito anos at\u00e9 que eu assumisse meu cabelo da forma como ele \u00e9.<\/p>\n<p>Fui andando at\u00e9 a faculdade, a 20 minutos da pens\u00e3o. Chegando l\u00e1, seguindo as orienta\u00e7\u00f5es, me reuni com um grupo de mais nove alunos e come\u00e7amos a discutir o caso de um paciente.<\/p>\n<p>Por causa da divis\u00e3o das aulas em pequenos grupos, foi somente ao final da primeira semana que constatei um fato do qual j\u00e1 vinha desconfiando: eu era a \u00fanica pessoa negra entre as cem da minha turma. Observando os corredores, notei que n\u00e3o pass\u00e1vamos de dez alunos negros no campus inteiro, que tinha mais dois cursos \u2014um de biologia, o outro de enfermagem.<\/p>\n<p>Quando voc\u00ea \u00e9 negro, a sensa\u00e7\u00e3o de entrar em um ambiente e perceber que \u00e9 o \u00fanico ali \u00e9 recorrente. Eu, que j\u00e1 tinha feito aulas de bal\u00e9 cl\u00e1ssico e passado dois anos no cursinho, n\u00e3o imaginei que agora que seria diferente. S\u00f3 pensei, com certo desconforto, que mais uma vez a hist\u00f3ria se repetia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Dois \u00f4nibus pra ir, dois pra voltar<\/strong><\/h3>\n<p>Conforme as semanas passaram, senti a necessidade de sair da pens\u00e3o. N\u00e3o podia fazer barulho e nem deixar as luzes do quarto acesas \u00e0 noite, em respeito \u00e0 senhora com quem dividia o quarto. Preferia estudar na biblioteca da faculdade. Sa\u00eda de l\u00e1 quando ela j\u00e1 estava para fechar, por volta das 22h. S\u00f3 voltava para a pens\u00e3o para dormir.<\/p>\n<p>Precisava, como os outros alunos, dividir um apartamento, para que pudesse ter um pouco mais de conforto. Mas n\u00e3o consegui fazer isso com as pessoas da minha sala. Quando surgia alguma vaga para dividir, era invi\u00e1vel pelo pre\u00e7o, que chegava ao triplo do dinheiro que podia gastar. Jamais conseguiria ir para um lugar chique.<\/p>\n<p>S\u00f3 concretizei meus planos quando me deparei com um an\u00fancio em um mural, colocado ali por duas meninas, de outras faculdades, que buscavam algu\u00e9m para o apartamento delas. Logo me mudei. N\u00e3o era o ideal, mas o que cabia no bolso: pegava dois \u00f4nibus para ir at\u00e9 a faculdade e dois para voltar, o que me tomava duas horas do dia. Eu recebia do governo R$ 300 de bolsa e gastava R$ 250 para dividir um quarto. O restante dos gastos era custeado com esfor\u00e7o pelo meu pai.<\/p>\n<p>E essa n\u00e3o era a \u00fanica desvantagem em rela\u00e7\u00e3o aos meus colegas. Os livros usados no curso eram caros e eu n\u00e3o podia comprar. Ent\u00e3o precisava selecionar as p\u00e1ginas que pretendia usar e tirar xerox. Tamb\u00e9m por isso continuei frequentando a biblioteca exaustivamente.<\/p>\n<p>Para ajudar na minha alimenta\u00e7\u00e3o, meu pai comprava comidas n\u00e3o perec\u00edveis e me dava aos fins de semana, quando consegu\u00edamos nos encontrar. Nestes dias, eu cozinhava o suficiente para a semana inteira. S\u00f3 alternava as marmitas com as idas a um restaurante Bom Prato, que tem pre\u00e7os mais acess\u00edveis, com almo\u00e7os a R$ 1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>O racismo te paralisa<\/strong><\/h3>\n<p>Seis meses depois, a situa\u00e7\u00e3o mudou. Me aproximei de tr\u00eas meninas da faculdade que moravam em um condom\u00ednio lindo, bem do lado do campus. Consegui ir para l\u00e1 tamb\u00e9m, dividindo um dos quartos. Viramos melhores amigas.<\/p>\n<p>Conforme a turbul\u00eancia do primeiro ano se dissipou, minha vida ficou mais est\u00e1vel. Os colegas de faculdade, por exemplo, n\u00e3o eram racistas comigo. O \u00fanico epis\u00f3dio de preconceito que vivi ali partiu de um professor: em uma das aulas, provavelmente no terceiro ano, ele disse que pessoas negras tinham mais aptid\u00f5es para esportes do que para atividades intelectuais.<\/p>\n<p>O racismo tem disso: ele chega de forma t\u00e3o inesperada que paralisa. A gente demora at\u00e9 processar que est\u00e1 vivendo aquilo, ainda mais quando acontece em um ambiente importante, como a faculdade. Ali existia uma rela\u00e7\u00e3o de hierarquia e de respeito da minha parte, ent\u00e3o tive um bloqueio. S\u00f3 consegui entender o que realmente aconteceu algumas horas depois.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Desistir? N\u00e3o, obrigada<\/strong><\/h3>\n<p>O ano mais conturbado da minha gradua\u00e7\u00e3o foi o quinto. Eu estava encarando a rotina de uma residente de medicina quando meu pai descobriu um linfoma. Precisei ir para S\u00e3o Paulo \u00e0s pressas algumas vezes para ajudar minha m\u00e3e nos cuidados com ele. Como filha \u00fanica, existia uma esp\u00e9cie de depend\u00eancia emocional dos meus pais sobre mim.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, ele precisou parar de trabalhar. E eu ainda n\u00e3o tinha uma fonte de renda, j\u00e1 que a faculdade demandava a minha presen\u00e7a em per\u00edodo integral. Ainda assim, n\u00e3o passou pela minha cabe\u00e7a desistir. S\u00f3 me permito abrir m\u00e3o de algo quando estou convicta de que aquilo n\u00e3o \u00e9 para mim. Se a desist\u00eancia for me gerar frustra\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o eu sigo at\u00e9 o fim.<\/p>\n<p>Para contrabalancear a turbul\u00eancia, tinha do meu lado o Denis, meu namorado e futuro marido, que tinha conhecido h\u00e1 menos de dois anos. Vendo minha situa\u00e7\u00e3o, ele passou a me ajudar financeiramente. Foi gra\u00e7as a esse apoio que pude continuar estudando e consegui realizar meu sonho.<\/p>\n<p>Finalmente, em 2012, chegou a hora da formatura. Mais uma vez, as coisas n\u00e3o seriam f\u00e1ceis: queria muito participar da festa, mas n\u00e3o tinha dinheiro para pagar. Ent\u00e3o trabalhei na comiss\u00e3o de alunos que organizava o evento para conseguir um desconto. Ainda assim, faltava uma parte do valor. Pedi \u00e0 minha m\u00e3e que fizesse um empr\u00e9stimo e garanti que pagaria assim que estivesse trabalhando.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h3><strong>Carreira, l\u00e1grimas, canudo<\/strong><\/h3>\n<p>Foi um momento muito especial, que durou tr\u00eas dias. Tivemos um jantar em homenagem aos pais e professores, a cola\u00e7\u00e3o de grau e o baile. Na hora de receber o diploma, me levantei para pegar o canudo com os olhos marejados e apontei para minha m\u00e3e, chorando, em um ato de gratid\u00e3o. Foi gra\u00e7as a ela que nunca desisti de nenhum sonho. Ela, \u00e9 claro, tamb\u00e9m se emocionou.<\/p>\n<p>Toda a minha fam\u00edlia participou da festa e foi divertid\u00edssimo, porque eles nunca tinham comparecido a um evento do tipo. Fui a primeira pessoa da minha fam\u00edlia a me formar em medicina.<\/p>\n<p>Meu pai, que estava melhor ap\u00f3s a primeira sess\u00e3o de quimioterapia, aproveitou muito, assim como minha m\u00e3e. Foi uma noite inesquec\u00edvel. Uma vit\u00f3ria t\u00e3o importante quanto outra, que eu ainda n\u00e3o sabia que estava para chegar.&#8221;<\/p><\/blockquote>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Thelma Assis relembra sua dif\u00edcil trajet\u00f3ria at\u00e9 o canudo em medicina Agora vencedora do BBB, a anestesiologista precisou superar barreiras da cor e g\u00eanero para alcan\u00e7ar o sonho do diploma &nbsp; Thelma Assis vem passando uma quarentena bastante ativa e engajada, mostrando que agrega muito mais que apenas a personagem carism\u00e1tica e de fortes convic\u00e7\u00f5es [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":43,"featured_media":2121,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"tags":[58],"class_list":["post-2118","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","tag-thelma-assis"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2118","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/users\/43"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2118"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2118\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2122,"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2118\/revisions\/2122"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2121"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2118"}],"wp:term":[{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.melinatavares.com.br\/en\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2118"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}